Por Igor Soares
Poucas vezes na história o Iron Maiden subiu aos palcos com um repertório tão generoso com seus fãs. A Run For Your Lives World Tour, que celebra os 50 anos da banda, chegou a São Paulo com um setlist que mistura os clássicos que nunca saem do repertório com épicos que raramente foram executados ao longo das últimas décadas. No papel, é um dos melhores setlists de todos os tempos. No palco do Nubank Parque, no dia 27 de outubro de 2026, segunda das duas noites da banda na capital paulista, esse setlist foi mais uma vez a grande estrela da noite, mas não sem algumas ressalvas.
Antes de falar do Maiden, é preciso falar de uma tradição. E infelizmente não é das boas. Quem acompanha os shows da banda no Brasil sabe que as bandas de abertura costumam ser o ponto fraco da noite. Em 2026 a tarefa ficou com o Alter Bridge, e o resultado não fugiu à regra.
A banda de Myles Kennedy e Mark Tremonti fez um show de oito músicas em cerca de 50 minutos. Abriu com "Silent Divide", passou por "Addicted to Pain", "Cry of Achilles" e "Fortress", e encerrou com a sequência "Metalingus", "Blackbird" e "Rise Today". Um show fraco, que pouco acrescentou a uma noite que todos sabiam ter dono. Fica a pergunta que nós, fãs brasileiros, fazemos turnê após turnê: quando é que o Iron Maiden vai trazer uma abertura à altura do seu público por aqui?
Pontualmente às 20h40, "Doctor Doctor" do UFO ecoou nos PAs do Nubank Parque e todos sabiam o que aquilo significava. A introdução de "The Ides of March" levou o público ao delírio, e a banda surgiu com Murders in the Rue Morgue, uma escolha ousada e fantástica para abrir o show. Na sequência veio Wrathchild, e já comecei a me incomodar com algo.
As músicas claramente estavam com um andamento mais arrastado do que estamos acostumados a ouvir. Não quero colocar a culpa no novo baterista Simon Dawson, que talvez esteja apenas seguindo ordens de Steve Harris, como bem observou o crítico Regis Tadeu em seu canal no Youtube. Eu quase nunca concordo com ele, mas dessa vez tenho que admitir que a teoria faz muito sentido. Seja qual for a explicação, o fato é que isso decepcionou muitos fãs, e as comparações com Nicko McBrain são mais do que justas. A pegada do velho Nicko faz falta, e muita.
Mas o Iron Maiden é o Iron Maiden, e com um setlist desses fica difícil a noite não decolar. Killers foi o primeiro grande momento do show, com Bruce Dickinson afiado e a primeira aparição do Eddie no palco. Esse é sempre um dos momentos mais esperados de qualquer show do Maiden, e mais uma vez empolgou a todos. Phantom of the Opera e The Number of the Beast mantiveram a temperatura lá em cima.
Então veio uma das grandes joias dessa turnê: Infinite Dreams. Fora dos shows desde 1988, a música do álbum Seventh Son of a Seventh Son soou como um presente para quem esperou décadas para ouvi-la ao vivo. Um dos pontos altos da noite, sem dúvidas.
Powerslave e 2 Minutes to Midnight prepararam o terreno para o épico Rime of the Ancient Mariner. O marinheiro contou mais uma vez sua história, agora acompanhado de animações fantásticas no telão, e é impressionante como esses longos minutos passam voando quando a banda está inspirada. Foi outro destaque absoluto do show.
Run to the Hills e a faixa-título Seventh Son of a Seventh Son deram sequência, até que chegou The Trooper, e a histeria tomou conta do Nubank Parque. O Eddie soldado voltou a duelar com o público, sempre um dos momentos mais aguardados da noite, e Bruce ergueu a bandeira do Brasil no lugar da tradicional bandeira britânica, num daqueles momentos que fazem qualquer fã brasileiro se arrepiar. Hallowed Be Thy Name veio logo depois, emocionante como sempre, e Iron Maiden fechou a primeira parte do show.
Aqui vale um parêntese. Nessa turnê, o Iron Maiden aposentou os tradicionais panos de fundo que mudavam a cada música e os trocou por um imenso telão. A novidade também dividiu opiniões entre os fãs, sobretudo na aparição do Eddie em "Iron Maiden", que nem de longe teve o mesmo efeito dos antigos "Big Eddies" do passado. Quem viu o mascote gigante surgir atrás da bateria em outras turnês sabe do que estou falando. Por outro lado, é justo reconhecer que o telão também teve seus grandes momentos, com animações fantásticas em "Aces High" e "Rime of the Ancient Mariner".
O discurso de Churchill anunciou Aces High, e o telão mostrou a que veio com uma das animações mais bonitas da noite. Na sequência veio ela, Fear of the Dark. Não adianta torcer o nariz. Essa música é sempre um destaque nos shows da banda, com aquele coro de milhares de vozes acompanhando as guitarras, e faz a alegria de quem porventura esteja vendo o Iron Maiden pela primeira vez. Precisa dizer mais alguma coisa? Acho que não.
E para fechar lindamente a noite, Wasted Years. Logo depois, "Always Look on the Bright Side of Life" do Monty Python ecoou nos PAs, como manda a tradição, e nos lembrou que, apesar de tudo, valeu a pena.
E aqui é preciso tirar o chapéu. Com quase todos os integrantes beirando os 70 anos, o Iron Maiden continua mandando ver nos palcos como poucas bandas da nova geração conseguem. Bruce Dickinson segue correndo de um lado para o outro e alcançando notas que muitos vocalistas mais jovens nem arriscam. Steve Harris continua apontando o baixo para a plateia como se fosse uma metralhadora. E o trio Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers segue afiado como sempre. Em 2016, em Fortaleza, escrevi que uma banda com integrantes na casa dos 60 anos dava um grande cala boca em quem questionava seu futuro. Dez anos depois, o cala boca continua valendo, e com juros.
O Iron Maiden completa 50 anos com um setlist que é uma verdadeira celebração de sua história. O andamento mais lento ainda precisa ser explicado, ou corrigido. Mas enquanto a banda tiver a coragem de tirar da gaveta músicas como "Infinite Dreams" e "Rime of the Ancient Mariner", nós vamos continuar respondendo ao chamado. Scream for me, São Paulo!
Fotos: Stephan Solon e Ellen Artie / Move Concerts Brasil
ALTER BRIDGE - SETLIST
01. Silent Divide
02. Addicted to Pain
03. Cry of Achilles
04. Fortress
05. Ghost of Days Gone By
06. Metalingus
07. Blackbird
08. Rise Today
IRON MAIDEN - SETLIST
01. Murders in the Rue Morgue
02. Wrathchild
03. Killers
04. Phantom of the Opera
05. The Number of the Beast
06. Infinite Dreams
07. Powerslave
08. 2 Minutes to Midnight
09. Rime of the Ancient Mariner
10. Run to the Hills
11. Seventh Son of a Seventh Son
12. The Trooper
13. Hallowed Be Thy Name
14. Iron Maiden
Bis:
Churchill's Speech
15. Aces High
16. Fear of the Dark
17. Wasted Years
Agradecimentos: Midiorama, pelo credenciamento do IRON MAIDEN 666 para a cobertura do show em São Paulo, e a todos os amigos que encontrei em mais uma passagem da banda pelo Brasil. ;)





