Resenha: Iron Maiden realiza o sonho de Fortaleza



Por Igor Soares

Para entender o que aconteceu em Fortaleza no dia 24 de março de 2016, é preciso viajar no tempo até o ano de 2008. Naquela época, ainda nos comunicávamos através do Orkut, e após mais uma passagem do Iron Maiden pelo Brasil, os rumores de que a banda voltaria para mais shows no ano seguinte, movimentavam comunidades de fãs em várias cidades, em especial de Fortaleza. Desde então, os cearenses levantaram a bandeira de uma belíssima campanha por um show da banda. A luta dos fãs resistiu ao tempo e as mudanças nas redes sociais, mantendo-se firme e forte por oito longos anos, até atingir o seu objetivo: ouvir milhares de fãs do Iron Maiden responderem ao chamado de "Scream for me, Fortaleza".

Na sequência da The Book Of Souls World Tour, que já havia passado por Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, a capital cearense só entendeu de fato o que estava prestes a presenciar, quando mais de dois mil fãs do Iron Maiden lotaram o Aeroporto Pinto Martins para recepcionar a chegada da banda a bordo do Boeing Ed Force One. A cidade literalmente se vestiu com camisetas do Eddie, que estavam por toda parte: nas ruas, nas praias, nos restaurantes, nos jornais impressos e na TV; onde o assunto era um só: o Iron Maiden está em Fortaleza.



No grande dia, desde cedo, milhares de fãs lotavam o entorno da Arena Castelão, o grande palco que receberia o Iron Maiden. Eles vinham de todas as partes do Nordeste, parecia uma grande reunião de família, daquelas onde você não conhece todos os parentes, mas mesmo assim se sente a vontade e feliz com a presença de todos eles.



Os portões se abriram e rapidamente o estádio foi tomado pela multidão. O primeiro show, dos garotos do The Raven Age, não chegou a empolgar a plateia, que respeitosamente apenas assistiu a banda de George Harris, filho do chefão do Maiden, executar com bastante competência músicas como "Eye Among the Blind" e "Angel in Disgrace" que estão em seu primeiro EP.

  

Os veteranos do Anthrax vieram logo depois e mandaram ver com o clássico "Caught in a Mosh", literalmente levantando o público na pista e nas arquibancadas. A porrada seguiu com "Got the Time" e "Antisocial", essa última cantada em coro pelos presentes. As performances de Joe Belladonna e Scott Ian são impressionantes ao vivo, sobretudo nas excelentes "Medusa" e "Indians", com direito a referência ao Sepultura, pra alegria da galera. Um showzaço do começo ao fim, mas o melhor ainda estava por vir.



Uma breve pausa para preparar o palco e quando "Doctor Doctor" do UFO ecoou nos PAs da Arena Castelão, todos sabiam que o show do Iron Maiden estava prestes a começar. A intro nos telões levou o público ao êxtase e quando Bruce Dickinson apareceu sozinho no palco, literalmente de corpo e "alma", o estádio foi a loucura! A explosão de euforia com If Eternity Should Fail na abertura do show, foi amplificada pelo primeiro grito do vocalista por "Fortaleza", prontamente respondido por 26 mil vozes! Era real, o sonho estava se realizando.



Com o tão esperado "Scream for me, Fortaleza", Speed Of Light deu sequência ao show com um pequeno susto, um tombo do baixista Steve Harris, que prontamente ergueu-se como se nada tivesse acontecido. Impossível não perceber a força do Iron Maiden nessa música, com integrantes na casa dos 60 anos e um vocalista recém curado de um câncer na garganta, o primeiro single do mais recente disco da banda é um grande cala boca naqueles que ousam questionar o presente e o futuro do Iron Maiden.



Uma breve pausa e o primeiro clássico da noite, Children Of The Damned, do álbum The Number Of The Beast. De volta ao show da banda após ser incluída no setlist da tour de 2009, empolgou o público, mas era uma das músicas que poderia ser facilmente substituída por outro clássico menos presente. A belíssima Tears Of A Clown inspirada no ator Robin Williams e a animada The Red And The Black que teve seu coro cantado em uníssono, deram sequência ao desfile de músicas novas. Aliás, é importante dizer o quanto elas funcionaram muito bem ao vivo e desde já aumentam a ansiedade por um futuro lançamento da banda com gravações dessa turnê. Mas calma, isso ainda deve demorar um pouco. Ou não?



O pano de fundo se movimenta e o Eddie com bandeira do Reino Unido denuncia a chegada de um dos momentos mais esperados de qualquer show do Iron Maiden. A histeria em The Trooper é sempre a mesma, é um clássico absoluto e mais uma música obrigatória nos shows da banda. Powerslave trouxe de volta as boas lembranças da Somewhere Back in Time World Tour 2008/2009 e um engraçado Bruce Dickinson na versão "Blue Demon" da luta livre mexicana.

Mais músicas novas! Death Or Glory e The Book Of Souls mais uma vez mostram que o Iron Maiden continua firme e forte após 40 anos. Aqui vale citar a precisão e maestria do sempre afiado trio de guitarristas da banda. Fico com a impressão de que Janick Gers se destaca nessa tour, com um certo papel de protagonismo que outrora foi de Adrian Smith nas últimas turnês. O sempre discreto e genial Dave Murray completa o trio que, hoje mais do que nunca, se completa e nos faz algumas vezes esquecer que um dia não estiveram sempre juntos.



E o Eddie? A música do Iron Maiden se completa com a imponente imagem do mascote da banda. O simbólico sacrifício do guerreiro maia, que tem seu coração arrancado e jogado para a plateia, é um verdadeiro show a parte.

Terminada a sequência de músicas novas, o Iron Maiden fez o de sempre, e com o público na mão mandou um clássico atrás do outro. O retorno de Hallowed Be Thy Name, a sempre empolgante Fear Of The Dark, com direito a um belíssimo e ensurdecedor coro dos cearenses, o incrível Big Eddie em Iron Maiden, as chamas de The Number Of The Beast, com direito a um Baphomet gigante, a sempre emocionante Blood Bothers e uma surpreendente Wasted Years fechando lindamente o show.

Nicko McBrain, que esteve escondido atrás de sua bateria dourada durante todo o show, finalmente aparece após a última música, com um grande sorriso no rosto e presentes para a plateia ele se despede do público junto com o restante da banda.

Fortaleza então finalmente realiza seu sonho, aliás, essa é a especialidade do Iron Maiden: realizar sonhos. O que nos resta agora é continuar sonhando, ainda por muitos e muitos anos...



Agradecimentos: Arte Produções, pela atenciosa equipe que credenciou e recebeu o Iron Maiden 666 para a cobertura do show em Fortaleza e a todos os amigos (foram muitos) que encontrei em mais uma passagem da banda pelo Brasil. ;)
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