Bruce Dickinson: "Eu jamais poderia ser um típico Rock Star"



A jornalista Emilly Retter entrevistou o vocalista do Iron Maiden para o Mirror Online. Confira como foi o descontraído bate-papo.

Recebo uma bela caneca de chocolate Hobnobs e Bourbon das mãos de Bruce Dickinson. "Você coloca açúcar?" ele diz sorrindo, tilintando a colher.

Este é Bruce Dickinson, por sinal. Do Iron Maiden. Que está com um álbum no topo das paradas neste momento. Um "heavy-metaller" que, mesmo com 57 anos, ruge pelo palco com braceletes de couro e tachas – quando não está "sendo vigiado". Mas percebo rapidamente que esta é apenas a performance do seu personagem.

"Eu jamais poderia ser um típico Rock Star" – comenta, com sua bebida. "Estou fora do estereótipo. Rock Stars são altos, magros e loiros, depilados e extravagantes - sou baixo, cabelos castanhos e britânico. Sou meio peludo também, infelizmente".

Yeah, eu penso. Bela tentativa. Esta é a quarta década do Maiden, e seu novo álbum, The Book of Souls, é o seu 16º. Mas, claramente, revelar uma boa anedota do estilo de vida rock n' roll na estrada, no passado ou no presente, não está em seus planos.

"As histórias antigas são irrelevantes", ele diz. "O que acontece num vestiário de rugby é muito mais escandaloso."

Conforme o dia vai passando, começo a acreditar nele. Talvez ele esteja literalmente me adoçando, mas este amável frontman soa como se sempre tivesse sido bastante estável.

Sim, nos primeiros dias – ele se juntou à banda em 1981 – havia bebida. "Apenas cerveja", ele insiste. E mulheres, naturalmente, mas ele logo muda de assunto. "Você pode imaginar que haveriam muito mais possibilidades, mas isso depende do quão altos ou baixos era seus padrões."

Drogas? Não. Ele nunca usou. Insiste que nunca teve amigos drogados e, quanto a seus filhos – Austin, 25, Griffin, 23 e Kia, 21, com sua segunda esposa, Paddy – Bruce decidiu desde cedo garantir que faria de tudo para certificar que eles nunca quisessem nem tocar em drogas.

"O que foi ótimo para meus filhos foi que, quando eles cresceram, nós os levamos para a estrada. E recebi algumas boas perguntas de crianças de cinco anos, tipo 'Papai, por que aquele homem está fazendo aquilo?'

Eles estavam no backstage, e sempre tinha um idiota suado que usou muita cocaína, batendo os dentes. 'Isso é porque ele usou drogas’, eu dizia. 'Drogas? Elas são uma coisa ruim?' e eu dizia, 'Julgue você mesmo'."

"O melhor antídoto possível para as pessoas não usarem drogas é presenciar uma porção de pessoas completamente chapadas, fora de si. Eles aprenderam e tomaram suas próprias decisões sobre as drogas."

Não há muito disparate em Bruce. Ele pode valer milhões como parte de uma das bandas mais lucrativas do mundo – que já vendeu mais de 90 milhões de discos – mas ele usa o metrô de Londres e seu programa ideal é passear num trem a vapor.

Estamos tomando chá, depois dele ter nos levado de Londres a Cardiff em um jato Eclipse, para cinco passageiros, avaliado em 2 milhões de libras. Pois, além de ser um rockstar, Bruce também é piloto. E não no seu tempo livre, para se exibir, mas um piloto realmente qualificado, que pilota aviões comerciais como um trabalho extra.

Bruce aprendeu a voar aos 30 anos, como um hobby, depois de uma vida inteira marcada pelo interesse em aviação, despertado por seu padrinho, que era membro da RAF, e o levava a shows aéreos. Mas ele logo decidiu que, se um trabalho valia a pena ser feito, 'ele devia ser feito de um modo que valesse a pena.'

Assim, ele treinou para pilotar jatos comerciais e trabalhou formalmente como piloto por 10 anos, adicionando sempre um mês de licença não remunerada às suas férias anuais, para que pudesse sair em turnê com o Iron Maiden. Depois, ele montou juntamente com um sócio a sua própria companhia e agora a Cardiff Aviation treina pilotos em simuladores e freta aviões. "Tenho cerca de setecentas mil horas de voo pilotando aviões comerciais ao redor do mundo, para todos os tipos de pessoas", diz Bruce. "Já levei Michael Heseltine e Max Hastings, times de futebol e a FA Cup à bordo três vezes. Já levei tropas de soldados que estavam no Afeganistão de volta para suas famílias. Eu estava delirando de alegria quando pousamos. Uma vez teve um traficante que morreu no avião - as cápsulas de droga explodiram dentro do seu estômago."

Na grande maioria das vezes, os passageiros não fazem ideia de quem Bruce Dickinson é, ou que ele é alguém famoso. Ele gosta desse anonimato.



A partir de fevereiro, ele levará a banda ao redor do globo em sua turnê mundial – 60 datas em 35 países – em um Boeing 747. "Uma das vantagens de ser o piloto é que você bebe apenas umas garrafas de água e todo mundo acaba tendo uma terrível ressaca", ele brinca.

Será a quarta vez que ele voa com a banda em turnês e desta vez ele está treinando especialmente para pilotar um 747 – bem maior que os aviões comuns – para que possam levar todo o equipamento também. Na parte traseira do avião, ele confessa, seus colegas de banda – Steve Harris, Nicko McBrain, Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers – vão se divertir muito. Haverá tênis de mesa e muita bebida – embora ele insista que os caras provavelmente estarão exaustos e grudados a seus laptops ou jogando cartas.

"Geralmente Nicko é o cara das festas. Ele possui sua própria adega, também. Eles vão se divertir lá – mas não vai ser exatamente uma orgia romana."

Tendo ou não Bruce diminuído o ritmo com o passar dos anos, certamente ele teve um motivo para desacelerar agora. Em dezembro, foi diagnosticado com câncer na língua e admite que enfrentou uma probabilidade de 60/40 de morrer. Sua doença, no entanto, acabou virando manchete pelos motivos errados. Os dois tumores de Bruce – um ao lado de seu pescoço e o outro na língua – foram causados pelo vírus HPV. Geralmente inofensivo, o vírus é contraído através de contato direto da pele. "Cerca de 80% das pessoas no Reino Unido já foram expostas ao HPV. Você pode contraí-lo de todas as formas, pode contraí-lo na escola, beijando alguém e também pode ser transmitido na gravidez de mãe para o filho."

Recentemente o HPV se tornou conhecido como o vírus que Michael Douglas afirmou ter contraído ao fazer sexo oral. Então, Dickinson sabia o que o esperava assim que ele admitisse o que tinha. "Eu disse para minha esposa que iria revelar o que tinha tido. Que poderia fazer algo de bom. Meu medo é que poderia atrair esse tipo de manchete. Tem sido muito embaraçoso, mas, na verdade, não, pois o que é necessário é que alguém vá lá e diga, olha, esse câncer causado por HPV é epidêmico entre os homens. Irá superar o número de casos de câncer cervical em mulheres até o ano de 2020."

Bruce acrescenta, bem sério: "Sou uma estrela do rock, então vamos pegar a p*** - mas na verdade, isso é muito sério. As pessoas estão banalizando algo que realmente é um sério problema de saúde pública."

Mas, independentemente do que tenha causado seu câncer, Dickinson está de volta e em excelente forma. Ele explica: "Segundo os médicos, o câncer se foi. Minha voz está se curando muito bem. Saliva, muco, tudo isso foi frito, mas está voltando".

Agora bem mais magro e, após três rounds dolorosos de quimioterapia e 32 sessões de radioterapia, seus pelos faciais estão começando a voltar também. E insiste que apenas se sente um pouco mais cansado do que antes. Ele diz que seu novo mantra pessoal é "Não deixe os bastardos te colocarem para baixo". É algo que ele aprendeu ao ser criado pelo avô durão, um mineiro de Worsop, Notts – sua mãe, que o teve aos 17 anos, e seu pai, um mecânico do exército, moravam separados dele, no começo, em Sheffield.

Seus pais estavam muito focados em garantir qualidade de vida para a família e se tornaram promotores imobiliários. Era um conceito novo naquela época e que deu certo para eles. Rapidamente eles compraram uma pensão e um estacionamento – o que rendeu recursos suficientes para enviar Bruce para um internato, quando ele tinha 13 anos. Lá ele foi vítima de bullying e era constantemente hostilizado por seus professores. "Tivemos nossas batalhas, até eles sangrarem.", ele revela. "Nesse caso você pode optar por carregar suas cicatrizes e eu escolhi não o fazer. Há pessoas que passaram por coisas piores e pessoas que passaram por coisas melhores. Apenas supere isso". E ele vai superar, à sua maneira de "não-rockstar" e eu não tenho dúvidas.
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