Bruce Dickinson: "não tocaremos Empire Of The Clouds ao vivo"



Bruce Dickinson concedeu uma entrevista para Andy Gaggioli do site Daily Rock, onde falou sobre o novo álbum do Iron Maiden, The Book Of Souls. Confira!

DAILY ROCK: Antes de tudo, como você está? Após tudo o que você tem vivido nos últimos meses, é uma pergunta obrigatória!

Bruce Dickinson: Sim, estou bem. Sempre tentando me movimentar da esquerda para a direita. O processo completo de cicatrização levará algum tempo. Algumas coisas dentro de mim precisam de tempo. Partes da mucosa da minha garganta devem se regenerar, porque foram “grelhadas” pela radiação. Mas vou ficar bem, porque terminei o tratamento há alguns meses. Certamente, haverá grandes melhoras até o final do ano.

DAILY ROCK: Essa experiência certamente tocou você como cantor e ser humano. Você tem a impressão de ter mudado?

Bruce Dickinson: Na verdade, não. No final deste tratamento, apenas duas coisas podem acontecer. A primeira é você se livrar do câncer e a segunda é não poder fazer tour (risos). Por isso estamos um pouco preocupados com a segunda opção. Agora, temos de nos concentrar na cura. Eu quero e eu vou conseguir trabalhar como antes. Eu estou em boa forma e meu corpo não foi muito afetado, só perdi um pouco de peso. Preciso ser cuidadoso ao cantar, porque isso vai mexer com muitas partes do meu corpo que estão em processo de cura, então, ainda não posso cantar. Eu tentei algumas vezes e meus pulmões não foram afetados, todas as notas ainda estão lá. Tenho que esperar e deixar meu corpo se recuperar. Meu médico disse "isso é ridículo, você não pode ficar indo de um lado pro outro assim" (risos). Talvez eu tenha me tornado mais impaciente com as pessoas ou coisas que me fazem perder tempo. O tempo de que disponho pode ser curto, pelo menos espero que não seja tão curto quanto agora (risos), mas acho que se eu tiver que parar, será minha escolha e não a de alguém.

DAILY ROCK: Seu tempo é precioso!

Bruce Dickinson: Exatamente, e eu só percebi isso agora. Há várias pessoas que gostariam que eu fizesse muitas coisas, mas eu vou fazer o que eu quero e não o que outros querem ou esperam de mim!

DAILY ROCK: E deve ser feito sem que a doença seja o motivo!

Bruce Dickinson: Sim, mas às vezes tem que acontecer alguma coisa para você realizar isso.

DAILY ROCK: O novo álbum “The Book of Souls” será lançado em 4 de setembro. É, provavelmente, o maior álbum de sua carreira, com 11 canções em mais de 90 minutos! Como você conseguiu ter o máximo de material utilizável?

Bruce Dickinson: Começamos a escrever e a gravar juntos e continuamos até dizermos: “é o suficiente! Vamos parar (risos), pois temos quase 100 minutos, é suficiente rapazes! Ainda há várias ideias deixadas de fora!”.

DAILY ROCK: Em uma entrevista sobre "The Final Frontier", Steve anunciou que continuaria nesta direção mais progressiva. Ouvindo "The Book Of Souls" eu sinto que você parece ter ido para um nível superior, com peças muito longas, cheias de mudanças de tempo e arranjos que lembram o rock progressivo da década de 1970.

Bruce Dickinson: Eu cresci com isso, mesma coisa para Steve.

DAILY ROCK: Uma música como "Speed of Light" soa mais hard rock deste período de 1970, do Heavy Metal que costumávamos ouvir...

Bruce Dickinson: Sim, isso soa muito Deep Purple, muito parecido com a fase "Burn".

DAILY ROCK: Devemos esperar que o Maiden siga nessa direção no futuro?

Bruce Dickinson: Honestamente, não sei o que dizer, não sei. Eu nunca teria me imaginado escrevendo uma musica de 18 minutos ('Empire of the Clouds').

DAILY ROCK: Ao longo de sua carreira, você nunca teve medo de escrever canções longas e épicas, como a excelente "Rime of the Ancient Mariner". Neste álbum, há três músicas de mais de 10 minutos, incluindo a "Empire of the Clouds", que possui 18 minutos!

Bruce Dickinson: Oh, sim. Posso assegurar uma coisa, não acredito que tocaremos "Empire of the Clouds" ao vivo (risos). Se isso for feito, será quase um projeto paralelo.

DAILY ROCK: Sobre esta musica, é muito raro você escrever sozinho uma música, para um álbum do Maiden. Sobre o que ela fala?

Bruce Dickinson: Ela conta a história real do maior dirigível do mundo, o R101 que caiu no dia 5 de outubro de 1930. É quase a história de um Titanic voador. É um acidente bem conhecido na Inglaterra. Quando o Hindenburg explodiu, todos acreditavam que era a maior tragédia de um dirigível, mas essa foi ainda mais grandiosa. E essa música é a história de seu último dia.

DAILY ROCK: Há muitos arranjos clássicos com piano, instrumentos de sopro e cordas. Você compôs tudo sozinho?

Bruce Dickinson: Bem, sim.

DAILY ROCK: É impressionante! Todo mundo sabe que você é um compositor muito bom, mas eu não sabia do seu talento na música clássica.

Bruce Dickinson: Mas não, não é clássica, é apenas... a música. É que são músicas montadas para contar uma história. Eu amo peças orquestrais com música rock, especialmente as trompas, violinos, flautas, oboé... esses tipos de instrumentos. Eu escrevi a música no piano e também gravei para o álbum. Foi um pouco estressante, porque eu sou um pianista ruim, bom o suficiente para montar as melodias e arranjos, mas certamente não um músico realmente competente.

DAILY ROCK: Ao compor uma música, é difícil manter o foco? Não há o risco de retrabalho da música, adicionando e removendo partes, sem nunca atingir um fim?

Bruce Dickinson: A coisa mais importante em uma musica longa, pelo menos para mim, é fazer pausas durante a composição. Eu escrevia uma parte e deixava de lado por um ou dois dias. Depois voltava, ouvia o que tinha composto e imaginava o que poderia acontecer em seguida. Eu estava tentando contar uma história e, portanto, inseria os elementos necessários para a narrativa. OK, a aeronave caiu em uma tempestade, bem, então você precisa de algo que soe como uma tempestade e, depois, imaginar o que acontece durante a tempestade, o que as pessoas no dirigível tentam dizer ou fazer. Enfim, você trabalha assim, até que a música esteja concluída.

DAILY ROCK: Então você compôs a música passo a passo ou você já tinha uma ideia do enredo principal?

Bruce Dickinson: Não, eu não compus passo a passo. Imagino que é um pouco como uma pintura em tela. Você começa com pequenos passos e, então, no dia seguinte, quando quer recomeçar, dá um passo pra trás pra ver o quadro geral e trabalhar mais detalhes. Foi exatamente assim com 'Empire'.

DAILY ROCK: Qual foi a reação dos outros membros quando apresentou esta música?

Bruce Dickinson: Imagino que eles tenham orado para não tocarmos ao vivo (risos)! Foi um desafio para gravá-la, porque tivemos que jogar o piano ao longo do primeiro terço da canção. Não havia nenhuma pausa. Tive que gravar as partes de piano e eles se basearam nelas.

DAILY ROCK: Você tem trabalhado com Kevin Shirley como produtor por 15 anos. O que você mais gosta do trabalho dele e qual a contribuição dele durante a produção do álbum?

Bruce Dickinson: Falando de "Empire of The Cloud", Kevin é um grande fã desta música, ele imediatamente soube que se tornaria enorme. Kevin é capaz de criar um som muito bom e consegue recriar a nossa visão das partes das músicas. É muito bom isso.

DAILY ROCK: Vocês não costumam mudar de produtor. Vocês foram fiéis ao Martin Birch por 12 anos e agora Kevin, há 15 anos. Isso é a confiança nas habilidades técnicas ou simplesmente não querem mudar uma equipe vencedora?

Bruce Dickinson: Por um lado, nós somos uma equipe muito boa e, por outro, se olharmos para o passado dos álbuns, Kevin foi capaz de acompanhar estas mudanças com a gente. Em minha opinião, seria difícil começar um novo álbum e confiar em um novo produtor. É uma relação muito íntima.

DAILY ROCK: Hoje em dia, várias bandas de metal competem para ter o som mais agressivo e pesado, mas vocês não têm medo de apresentar o seu som vintage! Você já pensou em ter um som mais agressivo, muito parecido com o som que você teve em seus discos solo?

Bruce Dickinson: Você sabe, o Maiden tem uma identidade musical muito forte, então, por que mudar e se parecer com os outros grupos?

DAILY ROCK: A indústria fonográfica está no nível mais baixo de sua história. Ainda é importante gravar novos álbuns? Como artistas e músicos, vocês ainda estão motivados para escrever novas músicas?

Bruce Dickinson: É muito importante escrever um novo material. Sem ele, seria uma espécie de “banda cover do Iron Maiden” ou uma “banda de karaokê” de nós mesmos, sem ser capaz de tocar músicas novas. É claro que poderíamos trabalhar sempre com 'greatest hits', mas porque o público ainda viria aos nossos shows sem ouvir nada de novo? Eles poderiam seguir uma banda de tributo! A razão porquê o público ainda está interessado no seu grupo, é porque você oferece coisas novas.

DAILY ROCK: Você, sem dúvida, é um personagem muito fascinante. Você é um cantor de sucesso, compositor, piloto de avião, esgrimista, escreve livros, produz cerveja... Como você consegue ser tão bem sucedido em tudo que faz?

Bruce Dickinson: (risos) Não sei se eu realmente sou bem sucedido em tudo o que faço, mas eu tento fazer o meu melhor. Eu sou bom em algumas coisas e menos em outras... então, tento trabalhar com pessoas que preencham essas lacunas. No caso da companhia aérea, tenho um parceiro muito bom e fazemos um bom trabalho. Para ter sucesso, não se pode desistir e é preciso ser realista. Se algo não funciona, é preciso ser capaz de aceitar que talvez isso não seja algo feito para você e se concentrar em algo novo.

DAILY ROCK: Depois de tudo isso, ainda há metas que você quer alcançar com o Iron Maiden, como um artista ou pessoa?

Bruce Dickinson: Com o Maiden, eu não seria contra ter um hit número 1 na lista da Billboard dos Estados Unidos. (risos)

Fonte: Daily Rock
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