Iron Maiden como modelo para o Oriente Médio?



Poderia a filosofia do Iron Maiden inspirar um sistema econômico alternativo no Oriente Médio?

O cientista histórico Mark LeVine produziu um belo e interessante texto sobre como o Maiden e o Heavy Metal podem ajudar a encontrar um modelo de modernização do Oriente Médio, que seja sustentável e beneficie os povos. O texto foi publicado no website da AlJazeera em julho de 2010, porém, mesmo um pouco antigo, vale à pena ser lido não apenas pelos fãs do Maiden – e de Metal – mas por estudantes, cientistas políticos e qualquer um que se interesse pelo que acontece no mundo.

The MAIDEN FRONTIER
Mark LeVine

Eu acho que foi no meio de “Blood Brothers” ou “Brave New World” que aquilo me ocorreu: eu estava assistindo a um diagrama do ainda não concretizado projeto de modernização do Oriente Médio.

Eu estava em pé com meu filho – bem, pulando na verdade – em algum lugar ao lado do palco do “Madson Square Garden”, a casa de show mais celebrada do mundo, escutando as lendas do Heavy Metal britânico, Iron Maiden, galopando por um inesperado repertório de 16 canções, durante um show “sold out” no meio de sua maior turnê na América do Norte.

As canções não estão entre as mais famosas do catálogo do Maiden, mas para os fãs de verdade – e eles são uma legião que ainda cresce – elas estão entre as mais adoradas. Na verdade, os mais de 20 mil fãs presentes no show cantaram as letras que quase todas as canções, apesar do fato da banda deliberadamente ter evitado a maioria de seus hits mais conhecidos durante esta turnê.

“Este não tem sido um grande verão para shows”, disse o vocalista Bruce Dickinson ao público ainda no início do show. A razão, ele explicou, é que a maioria das bandas está essencialmente tocando material antigo, “vivendo de canções de 1976”, ele brincou. “Mas aqui estamos nós fazendo nossa maior turnê na América do Norte. Não queremos ser fósseis”, ele gritou para um rugido vindo da platéia.

TRAÇANDO SEU PRÓPRIO CAMINHO

Então, o que o Iron Maiden tem a ver com o Oriente Médio?

Isto aconteceu na Dubai anterior à crise, em todo seu excessivo esplendor, e o festival estava com a capacidade total, 20 mil headbangers, a maioria árabes, iranianos e sul asiáticos, vibrando, gritando e até chorando durante o show do Maiden.



De fato, poucas platéias irromperam com mais energia do que a do “Desert Rock” quando o Maiden entrou no palco. E eu não acho que já tenha testemunhado um momento mais pungente do que quando o público cantou o hino do Maiden, “Fear of The Dark”, em uníssono com Dickinson, com isqueiros erguidos em uma das mãos, e telefones celulares na outra, gravando tudo para o Youtube.

“Esta a primeira vez que tocamos num país árabe”, disse Dickinson ao público, visivelmente surpreendido pela reação da platéia. “Eu sei que Dubai é o ponto de encontro. Todos estão aqui. Temos pessoas da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, Escócia, Líbano, Egito, Suécia, Turquia, Austrália, País de Gales, Estados Unidos, Canadá, Kuwait. Nós temos o mundo todo aqui esta noite… E nós voltaremos”.



Os membros do Iron Maiden ainda afetuosamente recordam do primeiro show em Dubai, mas na realidade o Maiden é a antítese de tudo que Dubai representa: consumo sem razão, estilo sobre substância, a perseguição da riqueza e da fama sem uma fundação sólida ou princípios sustentáveis.

“O que somos?”, pergunta retoricamente o empresário Rod Smallwood, o sétimo membro do Iron Maiden. “Honestidade, integridade, fazer seu melhor sem se importar com o que recebeu; na verdade, fazer você mesmo para não precisar fazer concessões. E mais importante, mostrar paixão aos nossos fãs e os inspirar. Se uma banda não consegue manter-se inspirando os fãs, qual o motivo de continuar”?

UM NOVO MODELO

Por grande parte da década passada Dubai foi saudada como a inspiração de um novo e globalizado Oriente Médio; o lugar onde Lexus e oliveiras – que o colunista do “New York Times”, Thomas Friedman, argumentou simbolizar os pólos da globalização – poderiam finalmente coexistir.



Enquanto o dinheiro e os aranhas-céus no estilo de Las Vegas continuam a crescer, os incentivadores de Dubai, como Friedman, se tornaram fervorosos em seu apoio ao “modelo Dubai” de desenvolvimento. Mas ao invés de Lexus da classe média alta, Dubai logo ficou abarrotada de Ferraris, Rolls Royces e outros caríssimos supercarros.

Quanto às oliveiras, fora o restaurante que possui este nome e os jardins da cidade da elite, poucas apareceram – se é que alguma conseguiu.

“Sim, mas quem quer ser tão rico?”, perguntou Smallwood algumas horas após o show, falando sobre as bandas que pegaram o fácil e comercial caminho, geralmente perdendo suas almas no processo. “Você acaba tocando só pelo cheque que sustenta aquele estilo de vida, ao invés de ser pelo fato de que é o que você ama fazer. Eventualmente os fãs percebem, e então onde estará você”?

Não surpreendemente, o “modelo Dubai” era insustentável, e agora o reino dos xeiques está procurando por uma base mais sólida para o futuro.

Em contraste, seja na noite em que o Maiden pisou em Dubai pela primeira vez, ou até na quente noite do “Madson Square Garden” três anos depois, a banda tem constantemente inspirado novas pessoas a irem aos seus shows, e visto sua base de fãs crescer, em boa medida porque recusaram a se fazer concessões ou a jogar pelas regras da cada vez mais disfuncional indústria musical.

UM CAMINHO MUSICAL EM DIREÇÃO A MODERNIZAÇÃO

E é aqui que a filosofia singular da banda oferece lições interessantes para sua grande base de fãs ao logo do mundo Árabe e Mulçumano – uma jovem geração que luta para definir um novo papel para eles próprios e para a região, num sistema globalizado que, assim como a indústria musical, parece estar fraudada contra eles.

Primeiramente, e mais importante, não jogue o jogo deles. O neoliberalismo, o sistema dominante da globalização, nunca produzirá uma grande prosperidade, democracia ou desenvolvimento sustentável para a vasta maioria dos povos da região, precisamente porque este modelo de integração econômica inevitavelmente concentra riqueza e, através disto, poder em poucas mãos.

É claro, este processo serve às elites autocráticas e à relativamente pequena, porém politicamente crucial, classe de cidadãos que se beneficiam de políticas como estas. Mas para os habituais egípcios, marroquinos e sírios, este paradigma trouxe poucos benefícios.

Em Segundo lugar, pense historicamente, mantenha-se verdadeiro para com suas raízes e faça você mesmo. Umas das grandes razões do Heavy Metal, e o Maiden em particular, serem tão populares ao longo do Oriente Médio e do mundo Mulçumano é precisamente porque o gênero e a banda representam a filosofia do “faça você mesmo”, que permitiu artistas e fãs evitarem as concessões que têm atormentado outros estilos, como o hip hop e o Mainstream Rock.

Por séculos os povos do Mundo Árabe e Mulçumano foram ditos que teriam que seguir o modelo de outra pessoa. Eles tiveram que se contentar com políticas impostas vindas de cima e do lado de fora – primeiro através do colonialismo e então, novamente, começando nos anos 70, através dos “programas de ajustes estruturais” que tem sido o coração das políticas do FMI, do Banco Mundial e de Washington, com relação à região.

Hoje uma nova geração, que se recusa a aceitar este desequilíbrio de poder, está emergindo ao longo da região. Mas o problema é como criar uma alternativa viável. Uma alternativa, é claro, é a al-Qaeda e outros movimentos e ideologias extremistas. Mas como muitos headbangers do Oriente Médio já assinalaram, enquanto lamentavam o fato de que muitos de seus conterrâneos os consideram um pouco melhores do que adoradores de Satã, ser um extremo fã de Metal é muito melhor do que a alternativa.

E é também aqui que o modelo do Maiden é relevante. Canções como “Brave New World”, “No More Lies”, e “Fear of The Dark” e seus maiores hits, como “The Trooper” e “Run to The Hills”, todas ressoam com os inúmeros fãs ao longo da região, porque as letras refletem a complexidade de suas histórias, de suas vidas e de seus futuros. Estes temas ainda são mais carregados de significados em Beirute e Teerã, que sofreram de grande violência num passado recente, do que no “Madson Square Garden”, a “Meca da música”.

“Esta certamente é uma das razões do Maiden ser especial”, explicou o vocalista Bruce Dickinson, quando o perguntei sobre o porquê do grupo ser tão popular no Oriente Médio. “Mas também é o aspecto da família. A banda e os fãs são como uma grande família”, ele continuou, ecoando as palavras maravilhadas que um egípcio amigo meu proferiu assim que vimos a cena em Dubai: “Finalmente, uma comunidade de verdade”, disse ele com um quase palpável sentimento de alegria.

Como muitos fãs de Metal assinalaram para mim, as canções do Maiden os lembram de não confiar no hype e nos slogans que prometem um amanhã melhor, que o progresso demanda deixar certos preconceitos de lado em favor de uma muito mais dura, porém mais honesta discussão sobre o futuro, e de que eles devem lembrar o passado, mas sem temer o futuro.

Se você fizer isto, então estará em posição de criar sua própria rede de contatos, usando suas próprias ferramentas e princípios: “faça você mesmo” em escala internacional. Ao invés de tentar usar o modelo de globalização de outra pessoa, desenvolva uma visão própria que seja verdadeira para você. “Nuca se venda, nunca faça concessões e sempre se mantenha verdadeiro”, é como Smallwood explica.



ALEGRIA: A FRONTEIRA FINAL

Isto, é claro, é mais fácil de falar do que fazer no Oriente Médio, já que os governantes da região em geral investiram muito no sistema atual. Mas o Maiden foi bem sucedido, precisamente porque a banda trabalhou à margem do sistema ao invés de tentar se unir ao mesmo.

Logicamente, construir uma carreira bem sucedida como uma banda de Rock, por mais difícil que seja, é nada comparado a construir um sistema econômico e cultural alternativo, numa região devastada pela guerra, ocupações, autoritarismo e pobreza. Mas o objetivo da música, e dos artistas que produzem a cultura que o resto de nós consome, raramente é prover um planejamento direto para a ação. Ao invés disto, o objetivo é inspirar, dar uma visão de um futuro diferente e a coragem de acordar de manhã e descobrir como sobreviver e até prosperar num sistema que não foi montado para seu benefício.

Mais de um integrante do Iron Maiden já me falou que talvez a alegria seja o maior presente que eles podem dar aos fãs. E seja em Dubai ou no “Madison Square Garden”, os shows estavam cheios de alegria, dos músicos e dos fãs.

O Metal é frequentemente acusado de ser a música da morte, e certamente as canções do Iron Maiden podem parecer, superficialmente, violentas e sangrentas. Mas como um músico de Metal iraniano disse sobre o gênero, e sobre o Maiden em particular, “o incrível é como uma música sobre morte, de fato afirma a vida”.

Enquanto olhava para aquele campo em Dubai, três anos atrás, e via uma reunião multinacional de pessoas compartilhando um raro momento de alegria e real comunidade, o poder que a música tem de reunir pessoas e curar velhas e profundas feridas se tornou abundantemente claro. Esse sentimento definiu uma ampla amostra da cultura Mulçumana na música, arte e literatura. É algo extremamente necessário ao longo daquela região, hoje.

Enquanto o Iron Maiden continua fazendo shows, os fãs ao longo do Oriente Médio em breve terão uma razão para sentir um pouco da alegria que os membros norte-americanos da família Iron Maiden sentiram durante a última turnê. E com alguma sorte, o Oriente Médio mais uma vez estará dentro da fronteira do Maiden.

Mark LeVine é professor de história na “Universidade da Califórnia” e pesquisador visitante sênior do “Centro para Estudos do Oriente Médio” na “Universidade de Lund”, Suécia. Seus livros mais recentes são “Heavy Metal Islam” e “Impossible Peace: Israel/Palestina desde 1989”.

Fonte: AlJazeera
Tradução: Imprensa Rocker